Os personagens são confrontados por essa pergunta: pode haver em nós algo que não deve vir à luz?

Pode a concretização dos sonhos ser algo que inspire terror? C.S.Lewis leva os protagonistas de A Viagem do Peregrino da Alvorada, um dos livros de As Crônicas de Narnia, a uma ilha solitária em que o onírico pode ser real, vivo — e perigoso. No capítulo 12, “A Ilha Negra”, um marinheiro perdido, desolado e desesperado avisa das distinções: não as meras vontades, não os pedidos da saudade, não os desejos vãos, mas essas criações arbitrárias (?), essa força criativa errática.

(…)

Depois dessa aventura, navegaram para o sul e um pouco para oeste, durante doze dias. O vento era suave, o céu quase sempre claro e o ar quente. Não viam ave ou peixe, mas uma vez avistaram muito longe o esguicho de baleias. Lúcia e Ripchip jogaram muito xadrez. No décimo terceiro dia, Edmundo avistou a bombordo da torre de combate uma grande montanha negra, erguendo-se no mar.

Alteraram a rota e dirigiram-se para aquela terra, quase sempre a remo, pois o vento não ajudava a navegação para noroeste. Quando escureceu, ainda estavam muito distantes da terra e tiveram de remar toda a noite. No dia seguinte o tempo estava bom, mas a calmaria era absoluta.

A massa negra estava na frente, mas próxima e maior, mas ainda muito obscurecida, de modo que alguns julgaram estar ainda muito longe, enquanto outros eram de opinião que se haviam metido no meio do nevoeiro.

Cerca de nove da manhã, repentinamente, ficou tão perto que puderam ver que não era terra, nem mesmo, no sentido comum, nevoeiro. Era a Escuridão. É um tanto difícil de descrever, mas vocês compreenderão como era, se se lembrarem da entrada de um túnel – um túnel tão comprido e dando tantas voltas que não se vê a luz no fim. Durante alguns metros ainda se vê a linha, depois chega-se a um ponto em que já é penumbra e, subitamente, mas sem linha divisória definida, desaparece tudo numa escuridão macia e densa. Foi o que aconteceu. Durante alguns metros ainda viam na frente da proa o ondear da água brilhante. Mais para além, já viam a água apagada e cinzenta ao cair da noite. Mais longe ainda, era a escuridão completa, o limiar de uma noite sem lua e sem estrelas. (…)

Com estalos e rangidos de todo o cavername, o Peregrino lançou-se para a frente quando os homens começaram a remar. (…) Ninguém sabe quanto tempo demorou a travessia nas trevas. Só os ruídos dos remos indicavam que o navio estava andando. Edmundo, olhando da proa, só via o reflexo da lanterna na água. O reflexo parecia oleoso, e as ondas provocadas pelo avançar da proa pareciam pesadas, pequenas e sem vida. À medida que o tempo ia passando, todos começaram a sentir frio, com exceção dos remadores.

Súbito, sem se saber de onde, veio um grito não-humano. Ou de alguém em tal extremo de terror que havia perdido a humanidade. (…)

– Piedade! – gritou a voz – Piedade! Mesmo que vocês sejam um sonho, piedade! Recolham-me. Levem-me a bordo, mesmo que seja para me matar! Mas não desapareçam, pelo amor de Deus, não me deixa nesta terra horrível! (…)

Edmundo nunca vira homem de aparência tão selvagem. Embora não parecesse muito velho, tinha uma touceira de cabelos brancos, a face escaveirada, e apenas alguns farrapos dependurados no corpo. Mas o que mais impressionava eram os olhos, tão abertos que pareciam não ter pálpebras, e com uma expressão angustiada de terror. Mal tocou os pés no convés, gritou:

– Fujam! Virem o navio e fujam! Remem para longe desta maldita terra! Salvem suas vidas!

– Acalme-se – disse Ripchip – e diga-nos qual é o perigo. Não temos o hábito de fugir.

O estranho estremeceu terrivelmente ao ouvir a voz do rato, no qual ainda não havia reparado.

– Seja como for, têm de fugir – arquejou – Esta é ilha onde os Sonhos se tornam realidade.

– É a ilha que eu procuro há muito tempo – disse um dos marinheiros. – Se tivesse desembarcado aqui, já estaria casado com Alice.

– E eu teria encontrado Tomás vivo – disse o outro.

– Loucos! – vociferou o homem, batendo os pés no chão num acesso de raiva. – Por causa de disparates como esses vim parar aqui, e seria melhor ter morrido afogado ou nunca ter nascido. Ouvem bem o que eu digo? Aqui os sonhos tornam-se vivos e reais. Não os devaneios; os sonhos!

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