Em O Lustre (p. 63-65), Clarice Lispector conta um sonho de Virgínia — personagem com idade entre 10 e 14 anos, que vive em uma fazenda com pouco a se fazer a não ser perambular e observar; que vive em meio à tensão familiar de um pai autoritário e ignorado, de uma mãe frustrada e de uma irmã e um irmão indiferentes e individuais, cada um de seu jeito. Virgínia, fascinada pela inteligência, ambição e brutalidade do irmão mais velho, é levada a conhecer, como ela diz, a vileza. Restabelece o que seja a moral denunciando os encontros da irmã com um rapaz. Depois, se observa longamente no espelho instantes antes de sua irmã ser interpelada e punida. O texto de Clarice enreda assassinato, lascívia e liberdade em um panorama de complexidade freudiana.

(…)

Numa súbita exaustão onde havia certa volúpia e bem-estar, deitou-se no leito de hóspedes. E como uma porta que se fecha depressa sem estrépito, rapidamente adormeceu. E rapidamente sonhou. Sonhou que sua força dizia alto e para o longe do mundo: quero sair dos limites de minha vida, sem palavras, só a força escura dirigindo-se. Um impulso cruel e vivo empurrava-a para a frente e ela desajaria morrer para sempre se morrer lhe desse um só instante de prazer, tal a gravidade a que chegara o seu corpo. Ela entregaria o próprio coração para ser mordido, ela queria sair dos limites de sua própria vida como suprema crueldade. Então caminhou para fora de casa e andou buscando, buscando com tudo de mais feroz que possuía; procurava uma inspiração, nas narinas sensíveis como as de um animal fino e assustado, mas tudo ao seu redor era doçura e a doçura ela já conhecia, e já agora doçuara era a ausência de medo e de perigo. Ela faria alguma coisa tão fora de seus limites que jamais a compreenderia — mas não tinha forças, ah não podia sair do que podia. Era preciso fechar um instante os olhos e rezar para si mesma brutalmente com desprezo até que num suspiro profundo, despindo-se da última dor, enfim esquecendo, caminhasse para o sacrifício do destino. Porque se eu sou livre, se com um gesto posso renovar tudo — caminhava ela no campo sob um céu esbranquiçado — então nada me impede de realizar esse gesto; essa era a sensação turva e inquieta. Enquanto andava via um cão e num esforço arquejante como o de sair de águas fechadas, como sair do que podia, resolveu matá-lo enquanto andava. Ele movia a cauda indefeso — pensou em matá-lo e a ideia era fria mas ela teve medo de estar enganando a si própria dizendo-se que a ideia era fria para fugir-lhe. Então guiou o cão com acenos até a ponte sobre o rio e com o pé empurrou-o seguramente até a morte nas águas, ouviu-o ganindo, viu-o debatendo-se, arrastado pela correnteza e viu-o morrer — nada restava, nem um chapéu. Seguiu serenamente. Serenamente continuava a buscar. Viu um homem, um homem, um homem. Suas largas calças colavam-se ao vento, as pernas, as pernas magras. Era mulato o homem, o homem. E os cabelos, Deus meu, os cabelos embranqueciam. Trêmula de asco encaminhou-se para ele entre o ar e o espaço — e parou. Também ele estacou, os olhos velhos aguardando. Nada no rosto dela fazia-o supor o que apenas aguardava para suceder. Ela teve que falar e não sabia como dizer. Disse:

— Tome-me.

Os olhos do homem mulato abriram-se. E em breve recortado contra o ar puro e o vento, contra o verde claro e escuro da relva e das árvores, em breve ela ria entendendo. Ele ergueu-a mudo, rindo os cabelos embranquecendo, rindo, e atrás estendendia-se a campina sob o vento. Ele ergueu-a mudo rindo, um cheiro de carne guardada vinha da boca, do ventre através da boca, um hálito de sangue; da camisa entreaberta surgiam pelos longos e sujos e ao redor do ar era vívido, ele ergueu-a pelos braços e a sensação de ridículo endurecia-a com ferocidade — ele balançava-a no ar provando-lhe que ela era leve. Ela empurrou-o com violência e ele mudo rindo mudo caminhou e arrastou-a e invencível beijou-a. Porém ele ainda ria quando ela se ergueu e serenamente, como o final de sair dos limites da sua vida, pisou-lhe com calma força o rosto enrugado e cuspiu-lhe por cima enquanto ele mudo, olhando não entendia e o céu se prolongava num só azul. Ela acordou imediatamente e quando abriu os olhos estava quase de pé, o rosto límpido e ansioso. Imóvel sentia o próprio corpo até o fim, grande, os músculos mansos contentes. Não experimentava torpor mas uma possibilidade de mover-se com equilíbrio. O que sucedera?

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