‘As casas eram construídas com livros. Nos castanheiros ramalhavam folhas de livros. E os homens, vestidos de papel impresso, com títulos nos dorsos’

No capítulo 5 de A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, um pesadelo, o temor da invasão de todos os espaços da vida por livros, por imprensa, por erudição. E um deus que ri de todo o iluminismo e suas certezas, enquanto lê Voltaire.

(…)

E simultaneamente, ou em obediência à sua Idéia, ou governado pelo despotismo do hábito, não cessava, ao lado de Mecânica acumulada, de acumular Erudição. Ó, a invasão dos livros no 202! Solitários, aos pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de autoridade, envoltos em plebéia capa amarela ou revestidos de marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam pôr todas as largas portas a Biblioteca, onde se estiravam sobre o tapete, se repimpavam nas cadeiras macias, se entronizavam em cima das mesas robustas, e sobretudo trepavam contra as janelas, em sôfregas pilhas, como se, sufocados pela sua própria multidão, procurassem com ânsia espaço e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns livros mais altos restavam descobertos, sem tapume de livros, perenemente se adensava um pensativo crepúsculo de Outono enquanto fora Junho refulgia. A Biblioteca transborda através de todo o 202! Não se abria um armário sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! Não se franzia uma cortina, sem que detrás surgisse, hista, uma ruma de livros! E imensa foi a minha indignação quando uma manhã, correndo urgentemente, de mãos nas alças, encontrei, vedada pôr uma tremenda coleção de Estudos Sociais, a porta do Water-Closet!

Mais amargamente porém me lembro da noite histórica em que, no meu quarto, moído e mole dum passeio a Versalhes, com as pálpebras poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito, praguejando, um pavoroso dicionário de Indústria em trinta e sete volumes! Senti então a suprema fartura do livro. Ajeitando, com murros, os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facúndia humana… e já me estirara, adormecia, quando topei, quase parti a preciosa rótula do joelho, contra a lombada dum tomo que velhacamente se aninhara entre a parede e os colchões. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo afrontoso – que entornou o jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E nem sei se depois adormeci – porque os meus pés, a que não sentia nem o pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a tropeças em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o luar branquejava, depois na Avenida dos Campos Elísios, povoada e ruidosa como numa festa cívica. E, ó portento! Todas as casas aos lados eram construídas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com títulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praça da Concórdia, avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar, arquejante, ora enterrando a perna em flácidas camadas de versos, ora batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e Crítica. A tão vastas alturas subi, para além da terra, para além das nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Eles rolavam serenamente, enormes e mudos, recobertos pôr espessas crostas de livros, de onde surdia, aqui e além, pôr alguma fenda, entre dois volumes mal juntos, um raiozinho de luz sufocada e ansiada. E assim ascendi ao Paraíso. Decerto era o paraíso – porque com meus olhos de mortal argila avistei o Ancião da Eternidade, aquele que não tem Manhã nem Tarde. Numa claridade que dele irradiava mais clara que todas as claridades, entre fundas estantes de ouro abarrotadas de códices, sentado em vetustíssimos fólios, com os flocos das infinitas barbas espalhados pôr sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catálogos – o Altíssimo lia. A fronte super-divina que concebera o Mundo pousava sobre a mão superforte que o Mundo criara – e o Criador lia e sorria. Ousei, arrepiado de sagrado horror, espreitar pôr cima do seu ombro coruscante. O livro era brochado, de três francos… O Eterno lia Voltaire, numa edição barata, e sorria.

Acompanhe as atualizações da série Livro de Sonhos também por esta página.

Categorias:Livro de Sonhos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *