No futuro, livros serão proibidos e as pessoas que os guardam caçadas; suas casas serão destruídas com todo e qualquer volume que possuírem

Farenheit 451, de Ray Bradbury, é uma metáfora sobre a leitura — sobre todo pensamento, raciocínio, crítica e memória contidos no ato de ler — e uma ode ao valor dos livros cheia de ação e elementos de ficção científica. Trata-se de uma distopia: no futuro, livros serão proibidos e as pessoas que os guardam caçadas; suas casas serão destruídas com todo e qualquer volume que possuírem. Como todas as casas se tornaram à prova de incêndio, os bombeiros foram remanejados para a função de por fogo no perigo em papel.

O título do livro é a temperatura exata na qual livros pegam fogo. As metáforas sobre fogo são várias — o entretenimento daquela sociedade, vazio e fugaz, é claramente comparado ao fogo que impressiona, hipnotiza, destrói tudo e passa. A leitura é comparada, inicialmente e não diretamente, a um garoto que tenta preencher um peneira com areia. Mas sempre algo escapa. Depois, sobre os livros se dirá:

Livros são apenas um tipo de receptáculo onde nós guardamos um monte de coisas que temos receio de esquecer. Não há nada mágico neles. A mágica está somente no que os livros dizem, o modo pelo qual juntam para nós os retalhos do universo em um só traje. Três coisas (…):

Número um: você sabe por que livros são tão importantes? Porque eles tem qualidade. E o que significa a palavra qualidade? Para mim, significa textura. Tal livro tem poros. Tem caráter. Você pode colocá-lo no microscópio. Você vai achar vida, fluindo em infinita profusão. Quanto mais poros, quanto maior o número de detalhes da vida por centímetro quadrado você consegue em folha de papel, o mais ‘literário’ você é. Essa é a minha definição. Exposição de detalhes. Detalhes estimulantes. Os bons escritores tocam a vida com frequência. Os medíocres vão e passam a mão nela. Os ruins a estupram e a deixam para as moscas. (…)

Essas falas estão na boca de personagens de Bradbury; o narrador não opina. Essa discussão que citamos é sobre se livros podem ou não nos ajudar em alguma coisa. O personagem Faber diz que sim, contanto que três coisas sejam garantidas. A primeira está acima e…

Número dois: ócio para digerir o que lemos. E número três: o direito de agir com base naquilo que aprendemos da interação entre os dois primeiros itens.

Essa metáfora implícita — digestão dos livros — é fundamental. É alinhar alimento físico com alimento intelectual diretamente — a leitura à ingestão, e a ação que segue à leitura à produção de energia e sustentação do corpo após a digestão. Esse é um processo de queima — mas não um processo de destruição como levam adiante os bombeiros de Farenheit 451, mas um processo que leva à vida. O protagonista Montag se verá surpreso em frente a uma fogueira — tão diferente do fogo corruptor que conhecia, aquele servia para aquecer. Processo de coleta, uso, absorção que não se restringe apenas aos livros.

Nós teremos tempo para guardar coisas dentro de nós mesmos. E, algum dia, depois de um longo tempo, isso tudo sairá pelas nossas mãos e bocas. E boa parte do que sair estará errado, mas o bastante, apenas, estará certo. Hoje, nós somente vamos começar a andar e ver o mundo e o modo pelo qual o mundo conversa e caminha, o modo pelo qual ele de fato é. Eu quero ver tudo. E mesmo que nada disso seja eu quando entrar, depois de um tempo tudo isso se reunirá dentro de mim e então será eu. (…) Eu vou segurar firme o mundo em minhas mãos, um dia. Agora, eu tenho um dedo sobre ele. É um começo.

Um livro é apenas um dos receptáculos, lembre-se. Farenheit 451 se opõe a um mundo opaco, sem aquele pensamento, raciocínio, crítica e memória. Bradbury mesmo divide tipos de pessoas que possuem essas características e outras que não as tem. Defende uma ideia que há na última tirinha de Calvin & Haroldo: em um fundo branco de possibilidades, o garoto diz: ‘it’s a brand new world, ol’buddy… let’s go exploring!‘.

 

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