Pádua Fernandes: “O mundo é o do muro crivado de balas. Eu pergunto: no muro crivado de balas, quem está vivo? No muro crivado de balas, quem é o arquiteto?”

Pádua Fernandes chega na Casa das Rosas, na Avenida Paulista, e checa a programação. Vê a mesa de folhetos e pega um de cada, incluindo uma nova edição do jornal O Casulo. Ele é professor de Direito, cujo doutorado (A Produção Legal da Ilegalidade: os Direitos Humanos e a Cultura Jurídica Brasileira, 2005) e mestrado (“Controle do Parcelamento do Solo Urbano: Legislação urbanística e produção ilegal da moradia”, 1996) denotam bem seus interesses de pesquisa. Junte essa preocupação social com uma paixão por cultura que se pode deduzir da descrição de sua chegada e terá o artista. Fernandes também é poeta, autor de Cinco Lugares da Fúria (Hedra, 2008) e O Palco e o Mundo (Lisboa: & Etc, 2002), participou das revistas de literatura Cacto (São Paulo) e Jandira (Juiz de Fora) e do periódico virtual português Ciberkiosk, entre outros, e também é tradutor.

Se fossemos criar outra metáfora, diríamos que ele é o edifício no qual sua obra se sustenta e a sua obra é a expressão artística da sua vida e intelectualidade. Ouvindo-o falar, alguém que ´escreveu seu primeiro poema aos nove anos´, vemos a estrutura de raciocínio que deu luz aos poemas, as ramificações que os versos tem na realidade da própria cidade (no caso, São Paulo), nas teorias sociais, nas pessoas de carne e osso. ´Eu escrevo sobre o que me comove. Os problemas da cidadania me interessam profundamente; me interessam como cidadão, como artista, como professor. Eu trato disso o tempo todo, estou engajado nisso. Escrevo sobre aquilo que me comove e sobre aquilo que faço. Se eu trabalhasse em outra coisa, com outras questões, talvez escrevesse sobre elas, mas eu trabalho com urbanismo, com direitos humanos, então, esse engajamento, ele é artístico, claro, mas ele também é existencial. Eu escrevo sobre as coisas que eu vivo´.

Sua obra poética teve dois focos: a questão da arte e, recentemente, a questão urbana: “no meu primeiro livro, O Palco e o Mundo, eu tinha a preocupação de desvendar as várias relações possíveis entre o palco, que era uma grande metáfora para a arte, e o mundo. Esse livro, então, dialoga com várias artes, principalmente com a música, com a pintura, com body art, com a literatura; eu tento falar do que existe de palco no mundo e o que existe de mundo no palco”. A representação urbana e a representação de mundo realizadas pela outra obra, Cinco Lugares da Fúria, são nosso objeto. Fernandes define o mundo que criou, suas regras e complexidades; também fala sobre quais são as razões para produzir arte, de acordo com ele, por causa de um desejo de permanência que está em todos nós; e como que sugere leituras, de autores que podem ser (ou poderiam ter sido) suas influências.

“Eu escrevo quando a escrita acontece. Não há preparo.” O texto abaixo é transcrição direta do poeta, com interferências pontuais do autor. Os intertítulos são citações de versos de Cinco Lugares

Cuidado: estamos no mapa

O mundo, acho que é esse aqui, [cita um poema do livro] é o do muro crivado de balas. Eu pergunto: no muro crivado de balas, quem está vivo? / No muro crivado de balas, quem é o arquiteto?; somos todos os nós os arquitetos: as balas são arquiteto, os tijolos do muro, mas também o vazio, o vazio feito pelas balas. No final do poema, o que fica desse muro é o vazio, porque as balas derrubam o muro, e o grande arquiteto passa a ser o nada. O mundo engloba tanto construção quanto desconstrução.

Essa dialética, a gente vê o tempo todo aqui. Olha aqui São Paulo. Como é que a cidade se faz? A cidade se faz desconstruindo algo já feito. Para o prefeito dar a cara dele pras calçadas da Paulista, destruiu a antiga. A cidade nova se constrói sobre a cidade antiga, o novo é feito sobre as ruínas. Walter Benjamin, no seu ensaio sobre a história, ele fala sobre o anjo da História. Que está atrás do anjo? É a destruição. O futuro é esse movimento de destruição do antigo. Isso a gente vê nas relações sociais, na arquitetura, no poder, na economia. Destrói, sempre conservando alguma coisa, mas a configuração antiga se vai.

Na literatura, quando a gente pensa, por exemplo, nesses momentos de grande mudança literária — no Brasil, a gente pode pensar no movimento modernista. É um momento de ruptura, foram atacados escritores antigos. Alguém, para escrever hoje, ele não pode simplesmente repetir o passado. Ele vai ter esse diálogo com o passado, mas vai ter de acrescentar algo de novo. Por que, senão, pra que escrever? Se for apenas pra repetir o que os velhos mestres já fizeram, não é necessário, a gente fica com os velhos mestres, que faziam as suas formas de um jeito brilhante. Quando a gente cria, temos de ter, nesse diálogo com o passado, um atrito, e nesse atrito deve surgir o novo.

Erosão e Ágora

Aqui há conflitos nas esferas governamentais, há conflitos intraclasse, assim como também há conflito entre os pobres. Não é uma relação de interesses homogêneos, mesmo que as pessoas estejam na mesma classe. Na luta social, há conflito dentro dos movimentos sociais e entre os movimentos que estão atuando na mesma área, por isso é tão difícil essa luta.

Uma das linguagens que o Poder usa é a do direito, a da lei. O livro até tem um poema que é uma sátira a uma tese de direito: De como a lei e os oficiais apresentam seus largos e luminosos domínios aos vassalos. Mas o direito, além de ser essa linguagem do Poder, ele também é uma prática. O Direito também é uma prática social, e, nesse ponto, ele pode se tornar um direito insurgente, na medida que ele vem dos excluídos, na medida que ele vem das classes que são menosprezadas. Assim ele aparece principalmente na última parte do livro, que conta a história de uma invasão urbana. Então, dentro da própria definição de direito há um conflito, porque não existe um direito só — de acordo com a classe social, o direito é apreendido e criado de formas diferentes. Há uma produção social e uma produção estatal do Direito. Isso pode ser problematizado em linguagem poética, que foi o que eu tentei fazer.

Ventre seco dos calendários

Assim como o nada acaba sendo o arquiteto, assim como o Cupim acaba sendo a grande voz da sociedade, no final acaba com o Lugar Nenhum, com a ocupação e a iminente desocupação de um prédio. Há nele um trecho sobre o tempo: em que lugar moram os relógios? Não sei, não se empreendeu a pesquisa de campo… é uma paródia à metafísica. Só que esta voz paródica vai falando de um tempo que está totalmente desgarrado do tempo social. Esse poema é interrompido: chega. Um babaca faria um poema assim. A voz que termina o livro, ela não quer falar desse tempo metafísico, quer falar dos diferentes tempos da sociedade. É por isso que ele invoca várias figuras: se um desabrigado achou um relógio quebrado, eles compartilham o mesmo domicílio, a mesma fratura? A percepção do tempo para um desabrigado, para um preso que espera a sua execução… as horas não são as mesmas para os loucos do parque e para os corretores de imóveis / elas não correm igualmente em lugares onde o pó se assemelha ao homem na luta pela terra, ou ainda nos idiomas em que o homem e o pó são indicados pelo mesmo sinal.

A nossa percepção do tempo depende do nosso ambiente social. Se a gente pensar no tempo como ritmo de vida — não é a mesma coisa o tempo na Idade Média, num feudo espanhol do século XIII e a nossa experiência contemporânea do tempo, em que tudo é acelerado, em que as mudanças tecnológicas, etc, fazem com que a vida mude muito mais rápido. Hoje, também, a experiência do tempo não é homogênea, muda de lugar pra lugar, de cultura pra cultura, há culturas que mudam mais, culturas que mudam menos, e também de acordo com a experiência social, com a sua classe social. Nem na física o tempo é homogêneo, socialmente, muito menos.

Eu acredito na poesia metafísica. Gosto muito da poesia metafísica inglesa, adoro John Donne e George Herbert. Eu gosto de poesia e arte religiosa, elas inspiraram coisas muito interessantes. Sem metafísicas não teríamos, sei lá, A Paixão segundo São Mateus. Esse movimento final do livro nega a metafísica porque ela não vai explicar a dor desse menininho que vai ter de sair da casa.

Falhas da representação, talvez a parcela mais vasta do que vemos

Meu livro todo são as falhas. Não há representação sem falha. Imagine o seguinte: imagine que o meu livro fosse uma representação perfeita de conflitos sociais. Não seria poesia, não seria arte. A arte acontece justamente na falha, no engano, nas omissões. Essas falhas de representação são a graça que permite que exista a arte. A arte não é, não deve ser uma mimese perfeita do mundo. Meu livro é todo feito de falhas, eu estou investindo aqui no erro, na falha, porque eu sei que aí é que possa acontecer alguma coisa artística, alguma coisa literária. Espero que minhas falhas sejam interessantes.

A falha é essencial, você não vai poder fugir dela, e a falha não é simplesmente erro, a falha é também um prisma. A forma como eu vejo o mundo e a forma como eu represento o mundo, digamos, é uma falha pela qual o mundo se dá para mim. Eu como um simples indivíduo limitado, etc, etc, minha visão de mundo será sempre limitada, será sempre parcial, isso é necessário, não é possível ter uma visão total. O que a gente consegue fazer em arte é que essa visão falha nesse sentido de ser deficiente, pequena e limitada, tenha um interesse para o outro. E isso a gente pode conseguir — que a nossa visão pequena, estreita, de um simples indivíduo que está localizado socialmente, espacialmente, temporalmente —de acordo com o trabalho formal. Se esse trabalho formal for eficaz, essa minha visão pequena, falha, limitada, restrita, vai interessar pros outros e vai ter alguma universalidade.

Todo artista sabe que ele não vai encerrar a arte. É impossível criar a sinfonia que encerre em si todas as sinfonias. É impossível criar o soneto que encerre em si todos os sonetos. É impossível a ideia de fazer Le Livre, o livro, que é a ideia do Mallarmé, nunca vai ter uma feição acabada no papel, a gente nunca vai fazer a obra que resuma todas as obras. Isso é extremamente belo, isso mostra que a arte é inesgotável. Nesse sentido, a gente lida sempre com a questão do finito e do inacabado. Mas por que a gente faz? Acho que a gente faz porque isso é da natureza humana: querer se expressar e ter uma vontade… — isso cada um vai ter dentro da sua vocação. Porque veja o seguinte: nós existimos durante algum tempo. A vida é ruim, a vida traz dores, ela acaba, então nós somos o que o Baudelaire chama de os escravos martirizados do tempo. Talvez por isso, por estar preso a essa realidade que é dura, a gente sinta uma necessidade de permanência.

Então, pense o seguinte: quando as pessoas vão a um museu — isso atende uma vontade de permanência, você está vendo lá coisas que foram criadas em outras épocas e ficaram. E você assistindo essas obras, você participa dessa possibilidade de eternidade que existe nelas. Quando você cria, a mesma coisa. A gente tenta fazer algo que nos ultrapasse, algo que vá ficar um pouco mais com a gente. O Fernando Pessoa fala disso no “Tabacaria”: um dia esses versos vão acabar, um dia a própria língua em que esses versos foram escritos vai acabar. Mas a gente cria dentro desse desejo de ficar mais um tempo, que é próprio de uma natureza finita, restrita e temporal que é a nossa. Quem é artista vai tentar fazer dentro da arte; quem faz outras coisas, vai fazer de outras formas. Então, a ideia de família, de ter filhos, a pessoa pode se dedicar à família pensando nisso: estou continuando isso que é maior que eu, essa ideia que atravessa a carne, como diz Drummond [“a estranha ideia de família/ viajando através da carne”]. Os artistas tentam responder a esse desejo humano de permanência dessa forma. É claro que a maior parte não dá certo, que a maior parte das obras é insignificante e muitas morrerão ainda antes do próprio artista. Em relação às minhas, não tenho a mínima ideia.

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