O confronto como ferramenta para o conhecimento e/ou necessidade vital

Além de belos efeitos especiais e um enredo muito bom, a mensagem mais interessante por trás do filme Matrix é o mítico caminho do herói. Neo entra na jornada de auto-conhecimento, entende mais de si mesmo e do mundo, passa a fazer as perguntas certas e busca a resposta na filosofia. Dentro dessa busca tem um fator a que os diretores deram muita importância: a luta.

As cenas de kung fu são as mais emblemáticas em Matrix, principalmente em Matrix Reloaded, quando Sephirot luta com Neo pois ‘só conhecemos alguém realmente se lutarmos com ele’. O confronto parece um elemento essencial no auto-conhecimento.

Mas esse texto não surgiu especificamente por causa de Matrix, a questão foi proposta por meu professor de Kung Fu (estilo Tao Tien Ti). Ele pedia uma explicação de por que a luta era importante no Tao Tien Ti, e antes mesmo de lembrar de Matrix lembrei de Meu tio da América, filme de Alain Resnais, que é uma ilustração de uma experiencia behaviorista.

No Behaviorismo (psicologia comportamental), existem os testes na ‘caixa de Skinner’ (experimentos com ratinhos), para estudo de condicionamento e resposta psicológica. Eles colocam o rato em uma gaiola com duas salas, separadas por uma pequena porta. A primeira parte do condicionamento consiste em dar um sinal visual e auditivo (campainha luminosa) cinco segundos antes de liberar um choque no chão da sala em que o rato se encontra.

Em pouco tempo, o rato aprende que toda vez que o sinal tocar ele deve ir para outra sala para fugir do choque. Enquanto ele tem a opção de ir para outra sala ele não apresenta nenhuma deterioração física ou mental. No entanto, quando fecham a porta e ele percebe o sinal e não tem a opção de fugir do choque, rapidamente apresenta sinais de psicopatologia e deterioração física (como queda de pelos).

Na complementação do experimento, eles colocam dois ratos na mesma sala e mantém a porta fechada durante o choque. Quando o sinal toca automaticamente os ratos lutam entre si, e, nessa fase do experimento, pelo fato de existir um confronto físico entre os ratos, nenhum dos dois apresenta deterioração física ou mental.

Como qualquer experiência behaviorista, esse experimento serve perfeitamente bem para se entender a vida dos seres humanos. Quando estamos em uma situação de estresse e não temos com quem nos confrontar, apresentamos psicopatologias (normalmente depressão, mas pode ser neuroses, paranóia ou até esquizofrenia).

Mas não parei apenas nos ratinhos, imediatamente lembrei também de uma parte da teoria psicanalítica, que apesar de ver sob outro ângulo, também demonstra a importância do confronto para o auto-conhecimento e aprimoramento pessoal.

Dentro da psicanálise também temos uma boa teoria sobre a questão do confronto, nesse caso vamos tomar a tese do Estádio do Espelho, proposta por Lacan. É dito estádio do espelho, justamente como confronto, não é um estágio, mas sim um estádio (como os de gladiadores).

Buscando a base do autoentendimento como ser individual, um bebê se reflete em outros bebês (ou em um espelho, observando a si próprio) para se entender, diminuindo o vinculo que tem com a mãe (inicialmente o bebê pensa que faz parte da mãe, e de tudo mais o que toca). A criação do ego começa com a reflexão que se tem do outro, ou seja, a separação que é efetivada entre você e o mundo externo. Mas a parte que queremos dentro dessa teoria vem depois, durante a formação da psique (até os sete anos de idade).

Percebemos em crianças pequenas que toda a forma de confronto com o outro, causa uma dor em si, como se todo o confronto fosse com o espelho, ou seja, consigo mesmo. Despreparados para esse confronto interno, a criança cai em prantos, no entanto são esses embates que mantêm uma saúde mental balanceada.

Quando não há o confronto durante a primeira infância a criança tende a se fechar no próprio mundo, dificultando qualquer aproximação social e criando uma barreira contra qualquer tipo de conflito que venha a ter futuramente, optando pela fuga. Quem não passa bem pelo estádio do espelho tende a desenvolver algum tipo de psicopatologia (ou pelo menos uma timidez mais forte que o normal). Observadas essas duas teorias, não é muito difícil fazer uma comparação também com a base do Tao, como observamos no trecho abaixo.

O Tao é a arte de treinar o corpo de modo a atingir uma mente serena. Ele é a essência das artes marciais. Mais do que um estilo de luta, é um estilo de vida, um caminho para desenvolver todo o potencial do corpo humano, através de movimentos harmoniosos em ciclos naturais. Um praticante do Tao mantêm sua mente e corpo em harmonia com o fluxo natural da vida, livre dos constructos artificiais de desenvolvimento, em um mundo atolado por materialismo supérfluo. Assim como é preciso existir pensamentos, palavras, compreensão e ações adequadas e corretas, deve-se possuir a mente adequada para alcançar o corpo e a vida corretos.

Temos assim uma boa conclusão sobre a importância da luta no Kung Fu. Primeiro, colocado pela própria filosofia do Tao, a luta é o exercício que consegue propiciar ao corpo o melhor nível de atividade, pois lida com todas as possibilidades de movimento corporal, desde a leveza do movimento circular à brutalidade de ataques seqüenciais. Para que seja possível evoluir o corpo ao máximo possível é necessário o confronto com o outro, assim os seus movimentos ganham um significado maior dentro dos exercícios.

Para a busca de uma mente sã já concluímos que é fundamental o exercício físico (corpo são, mente sã) e, nesse sentido, o confronto é um elemento especial para manter essa sanidade, como vimos na teoria behaviorista. E para completar, o confronto ganha um significado especial quando observado pela teoria psicanalítica, que demonstra que todo o confronto é contra o espelho, ou seja, contra nós mesmos.

Talvez seja por isso que a filosofia do Tao Tien Ti não valoriza a vitória sobre o outro, diz-se: “o essencial é não ser derrotado”. Pois, afinal, a luta é sempre contra nós mesmos. Assim desvendamos um significado especial para as cenas de luta dentro do filme Matrix, ou seja, uma preparação física e mental para a jornada que vem pela frente.

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