Fernando Morais narra biografia em ritmo de thriller e, às vezes, assume a postura do biografado. Leia a crítica do livro e a entrevista com o jornalista

Fernando Morais, na Bienal do Livro de São Paulo, em 2008

Por alguns instantes o jornalista Fernando Morais, autor de O Mago, biografia de Paulo Coelho, lembra o seu próprio personagem. Remetendo à condição de pop star do escritor de O Alquimista, ele usa óculos escuros em um ambiente fechado. Também veste roupas totalmente negras, o que por razões místicas o “objeto de seu interesse” usualmente faz. Em outro nível Morais, assim como Paulo Coelho faz, atende a todos os jornalistas sem distinção — até mesmo um estudante de jornalismo que lhe pede entrevista sem nem estar credenciado —, autografando livro após livro, para os compradores da fila que se forma à sua frente.

Essas cenas ocorreram na Bienal do Livro de São Paulo e são quase totalmente enganosas. Morais não absorveu Paulo Coelho, não se tornou quem pesquisava — mas, de fato, talvez compartilhe com ele uma característica essencial. Primeiro, vamos ao que engana no perfil acima. Os óculos não se devem a qualquer opção estética, mas a uma trombose — explica Morais a uns cinco fotógrafos que pedem um rosto sem acessórios para as imagens. O vestuário preto, esse sim, está lá porque emagrece. E enquanto Paulo Coelho vendeu 100 milhões de livros, Morais chega só a 2% disso, mas não parece desejar fama ou fogos de artifício; e aqui segue uma proposição arriscada: nem ele nem O Mago querem esses prêmios efêmeros. É o que os torna parecidos. Fernando Morais e Paulo Coelho compartilham o gosto por uma mesma sensação: o reconhecimento. Se tem na ponta da língua as respostas sobre seu livro, é porque Morais, de fato, sabe tudo sobre ele ou ao menos conhece todas as perguntas que lhe seriam feitas. Sabe também que conseguiu para si um furo de reportagem ignorado por todos por muito tempo e que fez um trabalho que poucos outros jornalistas teriam feito.

Teve até mesmo que apostar com seu biografado e vencer para receber informações confidenciais sobre ele. Justamente escrevendo sobre um autor conhecido por suas viagens e peregrinações projetadas por um mestre obscuro, Morais teve de cumprir uma missão, um teste que lhe daria dados a que ninguém mais teve acesso. Ocorreu dessa forma: em certo momento de sua vida Coelho foi preso pela ditadura e recebeu de um major a seguinte ameaça: “Se você estiver mentindo, eu arranco os seus olhos e os mastigo”.

O escritor propôs então ao jornalista que, se ele descobrisse quem foi esse militar, poderia ler o conteúdo de um baú com 40 anos de memória: 170 cadernos que serviram de diários, mais cem fitas de áudio. Paulo Coelho pusera no seu testamento que aquilo tudo seria destinado à incineração no momento de sua morte. Fernando Morais descobriu quem o torturara e cumpriu a sua ordália: o grosso do livro se constitui dessas confidências condenadas.

O resultado foi um livro com descrições vívidas da vida de Paulo Coelho, a partir do momento em que nasceu ‘morto’, muito frágil, até a especulação sobre quanto tempo levará para que os seus livros sejam esquecidos. Temos os acontecimentos e também as reações, as confissões, os comentários — como que em tempo real — do próprio Coelho, que, como o leitor verá, possui uma variedade surreal de experiências. É possivelmente a primeira vez em que a descrição publicitária de um livro (algo como “uma história que nem o roteirista mais criativo seria capaz de criar”) está próxima, bem próxima da verdade. Acompanhe: Paulo Coelho foi internado em um manicômio, passou por sessões de eletrochoque, transou com homens e mulheres (inclusive em situações inóspitas), tentou suicídio, se encontrou com o diabo, experimentou todo tipo de droga — maconha, cocaína, LSD e outras — fez dupla com Raul Seixas, reencontrou a fé, viu seu anjo e hoje é o ‘único autor vivo mais traduzido do que Shakespeare’. Desnorteante.

Visão autobiográfica

O maior problema que isso gera é que o livro não dá a sensação de que Morais tenha contestado a história de Paulo Coelho, assim como ele a conta. Não que a maioria dos dados pareça inverossímil ou sem sustentação — mas em pelo menos dois casos o ponto de vista do escritor é ou o único a que se tem acesso ou o único que recebe valor. No primeiro caso, estão as experiências sobrenaturais que — o que talvez seja pedir demais ao livro — nunca são explicadas, o que acaba legitimando o mistério que Coelho construiu em torno de si. Alguns elementos podem indicar que ele não quis desmistificar o seu personagem ou prejudicar o poder da ficção de certo trecho narrativo.

Por exemplo, no capítulo 16, Fernando Morais narra o momento em que Paulo Coelho, segundo o próprio, encontrou o diabo: “Além das vertigens e da fumaça, ouvia barulhos assustadores, como se alguém ou alguma entidade estivesse quebrando tudo à sua volta — mas as coisas continuavam em seus lugares”. Morais dá valor às visões. Ele releva que Paulo “por um instante implorou que estivesse vivendo o momento mais temido pelos usuários de droga — uma bad trip, a viagem às vezes sem volta provocada pelo consumo de LSD. Mas nem isso era possível. Fazia muito que não punha na boca um pedacinho sequer de LSD”. Acontece que era possível. O uso de LSD inclui o efeito flashback — o efeito da droga vem sem que se tenha de ingeri-la. De acordo com a ong americana Drug-Free America, o efeito pode ocorrer mais de um ano depois do último uso.

A informação também foi confirmada à Capitu pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid). No site Psicnet, coordenado pelo psicólogo Marcos A.L. Renna, há uma descrição dos sintomas do flashback, o chamado Transtorno Perceptual Persistente por Alucinógenos. Entre outros efeitos, “alucinações geométricas, falsas percepções de movimentos nos campos visuais periféricos, lampejos coloridos, cores intensificadas, rastros de imagens de objetos em movimento”.

A interpretação de Paulo Coelho tampouco é incomum. Uma pesquisa realizada em 1961 pelo professor de Harvard Timothy Leary, recentemente falecido, estudou os efeitos do LSD em 400 voluntários. Desses, 83% disseram ter “aprendido algo ou vivido uma iluminação”. Não é zelo demais pedir que Morais esclarecesse esses pontos. O jornalista Gay Talese, em A Mulher do Próximo — mesmo sendo partidário das idéias de seus entrevistados — traz um panorama, coloca as atividades deles em uma linha histórica. O leitor há de decidir se são só uma seqüência de malucos ou visionários persistentes. Poderia se afirmar que esse não seria o trabalho de uma biografia — mas no livro Machado de Assis, um Gênio Brasileiro, Daniel Piza, de acordo com ele, não legitima dados não-documentados sobre a vida de Machado. De resto, é o trabalho jornalístico questionar.

Visão revanchista

Outro elemento incômodo é que o jornalista assume o que seria o ponto de vista do autor, e ele próprio é revanchista em relação aos críticos de Paulo Coelho. É só olhar o vocabulário utilizado para definir toda e qualquer ação da crítica literária e jornalística e a descrição de Coelho ao lado disso, sempre magnânimo. Desde o título do capítulo 25 — a crítica não analisa, ela inicia um “esquartejamento público”. Página 492 do citado capítulo, Morais reclama que ´uma notinha de vinte linhas assinada por Hamilton dos Santos resumia a obra de Paulo a uma síntese gelatinosa de ensinamentos que vão do cristianismo ao budismo´. Verdade ou mentira? O autor nem sequer pensa em discutir. É um ataque ao Paulo Coelho e isso será descrito sucessivamente como pura maldade.

Na página 499, Morais diz que “no lançamento de Brida a mídia parecia querer sangue. Impiedosos e muitas vezes roçando o desrespeito, os principais veículos do Rio e de São Paulo pareciam dispostos a não deixar pedra sobre pedra”. O primeiro desses supostos ataques trata do uso da língua portuguesa. Luiz Garcia, pelo O Globo, afirma que Coelho ´não sabe usar a crase, emprega mal os pronomes, escolhe aleatoriamente as preposições”. Morais então nega que Paulo Coelho tenha errado ou confirma que esses erros de português não são importantes? O leitor que escolha segundo sua simpatia. Quando Jô Soares (pág. 500) abre seu programa com uma lista de 86 erros de O Alquimista, Morais atribui isso a ele ter embarcado na onda contra Paulo Coelho. Um pouco abaixo, ele relata que Paulo Coelho tinha “um fiapo de esperança de que alguém lesse seus livros sem preconceitos”. Mas eram só preconceitos, de fato?

Fernando Morais adotou uma frase de Nelson Rodrigues para dispensar essa fúria injustificada da mídia: “A crítica é incapaz de levar uma só bactéria às livrarias”. A recepção do público, então, é por excelência a única medida para saber da qualidade de um autor? Autores com boa recepção por parte da crítica e pequena vendagem seriam, pelo mesmo argumento, menores?

***

Na Bienal do Livro de São Paulo, Fernando Morais respondeu às nossas perguntas a respeito do seu processo do trabalho, do que pensa sobre Paulo Coelho e sobre o que fará agora, com a biografia pronta. As perguntas exclusivas da revista se unem a outras questões formuladas por jornalistas presentes à entrevista coletiva não-planejada, que se formou assim que Morais chegou ao estande da editora Planeta.

Por que o senhor escolheu o Paulo Coelho como biografado? Quais foram os seus motivos?

Olha, porque… [usa os mesmos termos do livro para se explicar] porque ele é o único escritor vivo mais traduzido que Shakespeare, porque ele vendeu 100 milhões de livros no mundo inteiro, porque ele deixou de ser apenas um autor de sucesso pra se converter num fenômeno pop planetário; eu viajei com ele pelo mundo inteiro e aonde quer que ele vá tem multidões interessadas em falar com ele, em vê-lo, em pedir autógrafo. Da Patagônia à Sibéria, não há um único lugar aonde ele vá que não junte uma pequena multidão querendo ter algum tipo de contato. Então, acho que isso é razão mais do que suficiente pra ele ser objeto do meu interesse.

Na sua opinião, por que a biografia fez tanto sucesso?

Primeiro que é preciso esclarecer que é uma biografia independente, é uma biografia em que o autor não meteu o bedelho nela, ele só leu esse livro quando já estava impresso, estava lendo junto com cem mil brasileiros. Isso, o fato de ser uma biografia com revelações pesadas sobre um brasileiro popular como o Paulo produziu um resultado surpreendente; o livro está em todas as listas de mais vendidos e a partir de outubro começa a sair em 47 países. Então, é isso. Eu acho que o Paulo chamaria atenção por ser ele quem é; por ser o fenômeno planetário que é, chamaria atenção de qualquer forma, mas acho que está fazendo esse sucesso todo sobretudo pelas revelações.

Qual a impressão do senhor sobre a personalidade do Paulo Coelho? Se puder resumir, como ele é?

Se eu pudesse resumir numa palavra, eu diria que ele é um obstinado. Ele é um sujeito que passou a vida inteira querendo uma única coisa: ser o que ele é hoje. Um autor lido e respeitado no mundo inteiro.

Raul Seixas não ficou numa posição muito secundária na história, mesmo sendo o grande músico que foi?

O Raul tem, nesse livro, a dimensão que ele teve para a vida do Paulo. Se você fizer as contas, vai ver que foi uma parceria curtíssima no tempo: um ano e meio depois deles terem se encontrado pela primeira vez, já não havia mais nada. Depois teve uma tentativa de ´reconciliação´, que não deu certo — pois eles nunca brigaram. O Paulo nunca quis ser roqueiro. O Paulo quis ser o que ele é. O Paulo nunca quis ser dramaturgo. O Paulo nunca quis ser jornalista. Nunca quis ser executivo de multinacional fonográfica. Ele queria ser o que ele é hoje., um escritor.

O senhor mudou alguma coisa no livro? Mudou, romanceou? Criou algum elemento ficcional?

Não. A minha concessão máxima é estética é procurar dar um trabalho literário ao texto jornalístico. Mas literário não significa ficcional. Literário significa um texto elegante, um texto fluente.

Mas tem muita tensão, como é que você consegue manter essa tensão?

Escolha do personagem. É a escolha do personagem. Porque eu passo por dez livros e não pifo, e acabo pegando um Paulo Coelho e todo mundo se surpreende? Tem dois tipos de personagem para se biografar: aquele que é muito conhecido e as pessoas já têm curiosidade sobre a vida dele, que é o caso do Paulo e do Chatô; e aquele que é desconhecido, que é o caso da Olga e do Montenegro, e que o biógrafo revela para o leitor, revela o personagem inteiro. No caso de O Mago, o que dá tensão, o que transmite a emoção para o leitor, é a história dele. O que eu fiz? A única coisa que eu fiz foi escolher os fatos da vida dele e montar uma estrutura que pode ou não ser cronológica — no caso do Chatô, não era cronológica.

Como é o seu processo de trabalho? Como produz as suas biografias?

Varia de personagem para personagem — cada um tem uma história diferente. Portanto, cada um acaba me obrigando a fazer um tipo de pesquisa diferente. Eu me valho basicamente de entrevistas — o maior número possível de entrevistas, o maior número possível de pessoas que eu puder localizar pra entrevistar — e de acervo, de material de arquivo. Depois de que eu tenho isso na mão, depois de que eu consigo juntar isso… em casos como o do Paulo, que a quantidade de material foi muito grande, eu tive que montar um banco de dados na Internet e criar um programa especial pra eu poder acessar as informações que eu estava querendo localizar. E aí é sentar e escrever, sentar e sofrer.

No caso dessa biografia, eu passei três anos… [interrompe a entrevista por um momento enquanto procura algo numa bolsa]… deixa eu tentar achar um remédio aqui… se é que está aqui… não, não está… [logo depois, coloca uma caixa de charutos Jewels Vanilla, com cinco unidades, sobre a mesa] … no caso do Paulo, eu tive de montar um banco de dados e criar um programa de computador especial pra eu acessar as informações. E depois é sentar e sofrer, sentar é escrever.

Foram três anos de trabalho?

Três anos de pesquisa e um ano de redação, texto.

O mesmo com Chatô [Chatô – O Rei do Brasil (Companhia das Letras, 2001), biografia do magnata brasileiro Assis Chateaubriand]?

Não, Chatô foi diferente porque eu larguei no meio, fui ser secretário de Cultura, então, não sei dizer exatamente quanto tempo levou. Do começo ao fim, durou sete anos; mas no meio parei, parei três anos, não saberia te dizer.

E o filme do Chatô, vai sair?

Espero que vá. O Guilherme [Guilherme Fontes, diretor acusado de mal uso de verbas governamentais de apoio à cultura. Em 22 de fevereiro de 2008, foi condenado pela Controladoria-Geral da União (CDU) a devolver R$35mi aos cofres públicos, por não-cumprimento do contrato] me disse que o filme tá pronto, só falta editar. Ele disse que ainda esse ano a gente já assiste o filme.

Já te procuraram para produzir um filme da biografia do Paulo?

Já tem cinco propostas. Quatro propostas de produtores brasileiros e uma norte-americana.

E o próximo biografado, já tem noção de quem pode ser?

[sorri] Quero descansar, quero passear de motocicleta agora.

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